Dalton Rothen

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Depressão e Religiosidade

Por Dalton Rothen

A vida moderna trouxe muitos benefícios oriundos da atividade econômica. Nunca na história da humanidade a quantidade de indicadores externos de bem-estar foi tão elevada. A diversidade e a qualidade dos alimentos, a cultura, os bens materiais que geram muito conforto, a comunicação abundante etc., isso tudo não deveria aumentar o grau de felicidade de todos nós? No entanto, os indicadores subjetivos de bem-estar vêm caindo.

A depressão é uma das doenças que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais cresce em nossos tempos e, conforme sabemos, é devastadora. Ela já ocupa o segundo lugar dentre as doenças que mais causam incapacidade no trabalho e a projeção é que até 2020 esteja no topo da lista. Esse crescimento estatístico deve-se a vários fatores. Além de os casos de depressão estarem realmente crescendo, deve-se levar em conta que seu diagnóstico é hoje muito mais preciso, isto é, sintomas que não eram apontados como da depressão hoje o são. Além disso, as pessoas que sofriam desconforto psicológico não procuravam médicos com a freqüência com que o fazem atualmente. O conhecimento atual indica que, além de fatores psicológicos e morais, a depressão também tem causas fisiológicas.

Um dos motivos psicológicos importantes para que se entre num estado de depressão é a perda da sensação de sentido na vida. E essa sensação depende de alguns fatores, tais como ter um propósito claro para viver, valores, eficácia na vida e uma base de autovalor. O que deve ficar claro aqui é a constatação que a sociedade de hoje tornou-se menos eficiente no fornecimento dessa base psicológica para um estado de humor mais positivo.

E a dimensão espiritual?

O desenvolvimento do espírito tem uma trajetória diferente da do físico. Inicia-se com a gestação e avança de maneira que o ápice só será atingido com mais idade. O corpo, as habilidades físicas e mentais podem declinar, porém o espírito que se desenvolve jamais declina ou esmorece.

Observe e compare duas pessoas que estejam na terceira idade, sendo uma religiosa e a outra não. A não religiosa olha para trás e vê que o melhor já passou, que muitas lutas foram em vão e que ela declina para o fim. De que valeram os inúmeros trabalhos, os estudos, o acúmulo de conhecimentos? Passaram e não voltam mais. A religiosa também se sente declinar, mas tem esperança, tem a sensação de que a vida não foi em vão e que o melhor momento ainda está por acontecer. Ela crê que ainda tem outro ideal a conquistar e sua experiência é um permanente exercício da distinção entre o bem e o mal. E esta distinção é essencial para uma vida melhor. Nem tudo faz bem e leva ao crescimento pessoal. É necessário separar aquilo que nos é benéfico do que não é. E, para tal, é vital enfrentar nossos dilemas fundamentais ao invés de ignorá-los.

Dalton Rothen
Psicólogo e autor do livro "para uma vida melhor"
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