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O tratamento da dependência de crack vale a pena

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7 Outubro 2008  |  Publicado por Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. em Medicina & Saúde, Para os Profissionais de Saúde

A cocaína é consumida por 0,3% da população mundial 1. A maior parte dos usuários, porém, concentra-se nas Américas (70%), seguida à distância pela Europa (13%) 1.

O crack é a cocaína em sua forma pura ou básica. Uma solução alcalina (bicarbonato de sódio ou amônia) adicionada a um solvente (éter ou acetona) é capaz de extrair a cocaína de sua combinação salina, que se precipita na solução, convertendo-se em cristais de cocaína quase puros, após a evaporação do solvente 2. A cocaína na sua forma básica se liquefaz a temperaturas relativamente baixas (98oC) e sublima a temperaturas um pouco mais elevadas (Negrete, 1992), ao contrário da apresentação salina, que sofre degradação nessas mesmas condições 3 . Isso permite que a pasta básica e o crack possam ser fumados diretamente em cachimbos ou misturados com tabaco ou maconha (basucos, nos países andinos e freebase, no Brasil).

O consumo atinge cerca de 0,5% da população brasileira 4. A maioria dos usuários inicia o consumo de crack entre de 12 a 24 anos 5,6. Apesar de ser um composto de cocaína, há algumas diferenças entre os efeitos obtidos a partir do consumo de crack e da cocaína refinida (”pó”) 7. O primeiro atinge rapidamente o sistema nervoso central a partir dos pulmões, provocando efeitos imediatos, de grande intensidade e curta duração. A combinação destes fatores reforça ainda mais o desejo por novas experiências com a substância, aumentando, assim, o risco de dependência. O crack surgiu como uma droga dirigida à população excluída e menos favorecida 8. Sua chegada gerou violência entre os narcotraficantes por espaço dentro deste novo mercado 9. Tais disputas com certeza contribuíram para o aumento dos homicídios em São Paulo (350%), a cidade brasileira mais atingida pela chegada da substância há 25 anos 10.

O tratamento para a dependência de cocaína e crack era pouco estudado há vinte anos. Na maioria dos países, o consumo destas substâncias era irrisório até meados dos anos oitenta. Com o aumento da oferta e a profissionalização do narcotráfico internacional a situação mudou: entre as drogas ilícitas, os usuários de cocaína e crack chegam a ocupar de 50 - 80% do total de vagas oferecidas nos ambulatórios e serviços de internação no Brasil 11. Pouco se sabia, no entanto, acerca da evolução desses pacientes após o tratamento.

Nos últimos anos, porém, alguns estudos que acompanharam usuários de crack em tratamento têm mostrado resultados encorajadores. No entanto, muitas lacunas ainda permanecem e comprometem o sucesso do tratamento destes indivíduos. Programas de tratamento baseados na motivação para a mudança e na aplicação de técnicas de prevenção da recaída foram capazes de estimular a abstinência entre 50 a 70% dos usuários de crack, tanto em ambiente ambulatorial, quanto internado 12,13. No entanto, tal abstinência não demonstra estabilidade: as recaídas com retorno aos padrões de consumo pré-tratamento chegam a atingir mais da metade dos usuários ao longo de um ano 13. Isso reduz o sucesso do tratamento para apenas 25 a 30% dos usuários .

Por outro lado, também se observa um movimento oposto. Entre aqueles que não se beneficiam com o tratamento e continuam utilizando o crack ou recaem, cerca de um quarto evoluem para a abstinência no mesmo período12,13. Um estudo que acompanhou usuários de crack por cinco anos notou que mais da metade estava abstinente ao final do período 12. Desse modo, percebe-se uma grande oscilação entre os usuários, alternando períodos de abstinência e consumo. Em geral, as chances de recuperação são iguais tanto para aqueles que possuem várias tentativas, quanto para aqueles que iniciam o primeiro tratamento 14. Apesar de ser difícil prever a evolução destes indivíduos 15, a abstinência estável parece aumentar a longo prazo 12.

Alguns fatores de boa evolução foram identificados. Aqueles que chegam para tratamento abstinentes (nem que seja há poucos dias) perecem recair menos após o término do mesmo. O índice de abstinência completa pode atingir 75% destes indivíduos 12. A motivação para abstinência completa também prediz bons resultados, atingindo cerca de 80% dos usuários 13. Um importante fator de sucesso é a continuidade do tratamento em regime ambulatorial após abordagens intensivas (internação ou várias consultas por semana) 12-15. Por outro lado, o uso nocivo de álcool 15 e outros estimulantes (como as anfetaminas) 12 foram considerados os fatores de pior prognóstico. Chegar para o tratamento ainda com padrões graves de consumo também compromete o sucesso da abstinência 12.

Os usuários de crack são bastante heterogêneos, dotados de padrões de desenvolvimento, nível sócio-econômico, formação educacional e cultural distintos16. Com maior freqüência envolvem-se em contravenções e apresentam complicações psiquiátricas 12. Tudo isso dificulta e complica a elaboração de um plano universalmente eficaz de tratamento. Apesar das propostas terapêuticas existentes deixarem muitas perguntas sem resposta, a maioria dos pacientes em tratamento melhora seu desempenho no trabalho e nas relações familiares, se afasta da criminalidade e apresenta menos complicações psiquiátricas 15. Além disso, apesar da dificuldade do dependente de crack manter um abstinência estável, sua chance aumenta no decorrer dos anos 12.

http://www.braha.org/pt/medicina-saude/161

Referências bibliográficas 

  1. United Nations Office for Drug Control and Crime Prevention (UNODCCP). Global illicit drug trends 2001 [online]. Vienna: UNODCCP, 2001. Available from: URL: http://www.undcp.org/adhoc/report_2001-06-26_1/report_2001-06-26_1.pdf .
  2. Ellenhorn MJ, Schonwald S, Ordog G, Wasserberger J. Ellenhorn’s medical toxicology: diagnosis and treatment of human poisoning. 2nd ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 1997.
  3. Negrete JC. Cocaine problems in the coca-growing countries of South America. In: Bock GR, Whelan J, editors. Cocaine: scientific and social dimensions. Chichester: John Wiley & Sons; 1992. p. 40-9. [Ciba Foundation Symposium 166]
  4. Galduróz JC, Noto AR, Nappo SA, Carlini EA. I Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas no Brasil. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) ~ Universidade Federal de São Paulo; 2002.
  5. Nappo SA, Galduróz JC, Noto AR. Uso do “crack” em São Paulo: fenômeno emergente? Rev ABP-APAL 1994; 16 (2): 75-83.
  6. Ferri CP. Cocaína: padrões de consumo e fatores associados à procura de tratamento. São Paulo: Apresentada à Universidade Federal de São Paulo (Escola Paulista de Medicina) para obtenção do grau de Doutor, 1999.
  7. Hatsukami DK, Fischman MW. Crack cocaine and cocaine hydrochloride: are the differences myth or reality? JAMA 1996; 276(19): 1580-7.
  8. Hamid A. Crack: new directions in drug research. Part 2. Factors determining the current functioning of crack economy - a program for ethnographic research. Int J Addict 1991; 26(8): 913-22.
  9. Blumstein A, Rivara FP, Rosenfeld, R. The rise and decline of homicide - and why. Annu Rev Public Health 2000; 21:505-41.
  10. Cordeiro R, Donalisio MRC. Homicídios masculinos na Região Metropolitana de São Paulo entre 1979 e 1998: uma abordagem pictórica. Cad Saúde Pública [periódico online] 2001; 17(3): [11 telas]. Disponível em: URL: http://www.scielosp.org .
  11. Dunn J, Laranjeira R, Silveira DX, Formigoni MLOS, Ferri CP. Crack cocaine: an increase in use among patients attending clinics in São Paulo: 1990-1993. Subst Use Misuse 1996; 31 (4): 519-27.
  12. Gossop M, Marsden J, Stewart D, Kidd T. Changes in use of crack cocaine after drug misuse treatment: 4-5 year follow-up results from the National Treatment Outcome Research Study (NTORS). Drug Alcohol Depend. 2002 Mar 1;66(1):21-8.
  13. Siegal HA, Li L, Rapp RC. Abstinence trajectories among treated crack cocaine users. Addict Behav. 2002 May-Jun;27(3):437-49.
  14. Hser YI, Joshi V, Anglin MD, Fletcher B. Predicting posttreatment cocaine abstinence for first-time admissions and treatment repeaters.
    Am J Public Health. 1999 May;89(5):666-71.
  15. Alterman AI, McKay JR, Mulvaney FD, Cnaan A, Cacciola JS, Tourian KA, Rutherford MJ, Merikle EP. Baseline prediction of 7-month cocaine abstinence for cocaine dependence patients. Drug Alcohol Depend. 2000 Jun 1;59(3):215-21.
  16. Dunn J, Ferri CP, Laranjeira R. Does multisite sampling improve patient heterogeneity in drug misuse research? Drug Alcohol Depend. 2001 Jun 1;63(1):79-85.

Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa Álcool e Drogas


Site relacionado: http://72.21.62.210/alcooledrogas/atualizacoes/as_131.htm

 

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